O Santos tem dono: Neymar
Ilan House
O Santos demitiu Dorival Jr.Dorival era chefe de Neymar. O subordinado que desobedeceu, xingou, humilhou e desacatou o chefe.
O projeto de craque que desrespeitou adversários, companheiros, torcedores e fez a própria mãe chorar.
Neymar é o melhor jogador do Santos. Mas Dorival preferiu corrigi-lo – pensar no jogador e no clube a médio prazo - do que beneficiar a si próprio que, sem Neymar, ficaria com o time mais enfraquecido.
Dorival tirou o moleque de um jogo e tiraria de outro. Estava certo? Talvez. Pode ser que não. Mas era ele, só ele, o mais indicado para avaliar.
Certo ou errado, era o comandante; sério, competente, e que levantou dois títulos pelo Santos este ano.
Dorival foi demitido – ou foi forçado a pedir demissão – porque não aceitou escalar o rebelde na marra. A desculpa da diretoria – que até cinco minutos antes o julgava capaz de tomar decisões - é insubordinação do técnico. Tão esdrúxula quanto fantasiosa.
O Presidente Luis Álvaro e seus colaboradores não percebem, mas acabam de piorar ainda mais uma cabeça que já não é das melhores: Como vai ficar o clima entre Neymar e os companheiros? E com outros colegas do futebol?
E a torcida? Vai engolir erros do garoto? Pênaltis perdidos? Derrotas?
Neymar não pode mais errar.
Tudo pareceria muito difícil de entender, absurdo demais para acreditar, errado ao extremo para ser verdade.
Mas não é.
Porque o grande Santos, bicampeão mundial, nove títulos nacionais, dezoito paulistas, berço do maior jogador de todos os tempos, tem agora uma diretoria desmoralizada, um futuro técnico decorativo, e um dono:
Neymar.
__________________________________________________
Dorival fora do mundo paralelo de Neymar
Marcelo Barreto
O que você fazia aos 18 anos? Talvez já tivesse assinado seu primeiro contrato profissional, mas provavelmente não para receber 600 mil reais por mês. E é difícil imaginar que já ganhasse 60 mil – mais do que muitos executivos de multinacional – desde os 13, quando seu salário ainda precisa ir para a conta de alguém mais velho. Qual de nós tem em sua própria experiência de vida elementos para julgar Neymar? (Uma pausa antes de passar ao restante do texto: este primeiro parágrafo não questiona a legitimidade do dinheiro que o jogador do Santos ganha, apenas reflete sobre o impacto que tem na cabeça de alguém tão jovem.)Neymar vive em outro mundo, o mundo paralelo dos jogadores de futebol – que não é feito só de dinheiro, mas de poder também. O poder que experimentou de novo agora há pouco, quando a diretoria do Santos demitiu Dorival Júnior por ter sido xingado por ele. O ofensor foi multado e suspenso por um jogo. Seria por mais um, mas aí o ofendido caiu. E será uma grande surpresa para este blog se sua queda não tiver grande aprovação da torcida do Santos.
Neymar é do Santos, Neymar tem que jogar; contra o Corinthians, mais ainda. Revogam-se todas as disposições em contrário. O olhar do torcedor, por natureza e direito, não precisa alcançar mais longe do que isso – não precisa sequer alcançar o outro lado da arquibancada, desde que isso não chegue ao ponto de ameaçar o convívio em sociedade. Quem tem de enxergar mais longe, por dever de ofício, é quem trabalha com o futebol – mesmo que esse trabalho seja voltado para apenas um clube, como é o caso da diretoria do Santos.
A expressão “criar um monstro” já foi muito usada nos últimos dias sobre Neymar e provavelmente se repetirá nos próximos. A diretoria do Santos talvez prefira “proteger o patrimônio”. Demitir Dorival por causa de seu principal jogador pode significar uma coisa e outra. O risco para o Santos é que, no momento de demitir o treinador, os dirigentes tenham se comportado como os torcedores, com seu olhar enviezado.
Quanto a Neymar, o monstro pode ainda não estar criado, mas o risco é grande. Xingar o treinador e os companheiros de time por não ter batido um pênalti é feio, coisa de garotinho mimado. Chamar os adversários de pobres, fazer alusão a sua origem nordestina, repetir para eles seu próprio salário milionário e dizer que não pode ser marcado por quem não tem onde cair morto é algo muito mais grave. E o jovem atacante do Santos e da seleção brasileira já foi acusado de fazer tudo isso. Se você não quer acreditar, é direito. Mas por favor, não o defenda dizendo que é “coisa do futebol”, o argumento clássico para casos ainda mais graves, como os de racismo.
Não sei o que você fazia aos 18 anos, mas se era algo assim espero que tenha mudado muito. Afinal de contas, ninguém num mundo paralelo demitiu um técnico para lhe dar razão. As coisas são diferentes aqui na vida real.
_______________________________________________
Crônica final de uma queda-de-braço
Ledio Carmona
A única diferença do caso Neymar x Dorival Junior para outros tantos é que desta vez o medo da diretoria diante do craque, fato corriqueiro, histórico e, pelo jeito, insolúvel no futebol brasileiro, não teve dissimulação. Desde o primeiro minuto da pendenga, a cartolagem assumiu o lado do garoto mimado, bajulado, imaturo e que confunde o esporte que joga com tênis. Numa quadra de saibro, de grama e de piso duro, o jogador só tem ele, várias bolas e um treinador bem longe a orientá-lo. Perfeito para alguns boleiros…
Neymar, com seus conceitos egocêntricos e costume de ter um reino a paparicá-lo, deveria pegar a sua raquete e criar o MMN (Mundo Mágico do Neymar), algo parecido com uma Neymarolândia, onde o mais importante é se divertir, jogar muita bola, fazer gol, dar dribles espetaculares, cobrar pênaltis ridículos e ignorar o que pensa, o que faz e o que recomenda um treinador. Espécie de anarquia adolescente no mundo profissional do futebol.
Tudo estava bem divertido até que Neymar começou a ultrapassar seus linites. Com uma conta bancária turbinada desde os 13 anos, o projeto de craque passou a se considerar o rei. Exageros. Pênaltis cobrados com a patética cavadinha numa decisão de Copa do Brasil. Lençol em adversário com a bola parada. Simulações atrás de simulações. Acusação de menosprezo por parte dos adversários. E, capítulo final da temporada, xingamentos em pleno jogo na direção do treinador, do capitão e do público geral, que, perplexo, teve que acompanhar, ao vivo, aquele show histriônico, mal educado e repleto de insensatez.
Neymar, projeto de craque e talentoso até a alma – ele joga demais e não podemos ignorar essa realidade -, teve um azar no caso. Um técnico de cabeça e personalidade fracas teria posto panos quentes e absorvido o vexame. Dorival Junior, não. Grande treinador, acostumado a ser admirado por jogadores, sem perder hierarquias e o controle de normas e regras, pediu uma punição. Não aquela bobagem de multa que a diretoria do Santos quis aplicar a um menino rico. DJ queria puni-lo com o que ele mais sentiria falta: o direito de jogar bola. E não bastaria tirá-lo de um jogo sem glamour contra o Guarani. Se não jogasse o clássico contra o Corinthians, o castigo teria sido completo. Neymar sentiria. E a diretoria fraquejou, com medo de uma derrota contra o maior rival e ainda se sentindo desautorizada pelo treinador.
Dorival Junior poderia ter sido mais político? Poderia, mas se ele resolveu esticar a corda é que teve consciência de que, até aquele momento, a punição a Neymar não havia sido absorvida pelo garoto. O treinador só quis manter a ordem dentro do seu departamento e do Santos. Seu único erro, pelo que lemos nos noticiários (ainda não conseguir confirmar a informação), é que teria concordado em escalar Neymar, assumido o compromisso e depois voltado atrás. O hiato merece mais esclarecimentos.
Nesse ponto, o Santos também poderia ter sido mais maleável. Não foi. Preferiu demitir o melhor treinador que teve nos últimos anos. Preferiu entregar o poder a Neymar, seu boné para trás e seus inocentes 18 anos. E, sinceramente, no fim todos ficarão felizes. A diretoria do Santos; o empresário do jogador, sempre tão zeloso pelos seus interesses; patrocinadores, idem; Neymar, que poderá viver seu MMN na Vila Belmiro; e Dorival Junior, que, após ganhar dois títulos, deixa um clube cuja diretoria não entendeu sua forma de trabalhar, agir, viver e, principalmente, comandar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário